Quando envelhecemos, nossa vida é como um roupão gasto;
ficamos envergonhados de usá-lo, mas nos repugna
jogá-lo fora;
já vivemos com ele há tanto tempo que a ele nos
acostumamos,
como se fosse um irmão;
também nós não podemos ser consertados e feitos de novo...
Ele envelheceu como nós, assim acontece;
nossa vida está em farrapos e ele também;
está todo esgarçado e salpicado de tinta,
mas damos mais valor a essas manchas do que a qualquer
estamparia.
São as marcas de uma pena rebelde à qual,
em dias de radiante ventura ou sombria amargura,
confiamos todos os nossos pensamentos, segredos e
confissões, toda a história de nossa vida.
Também na vida existem marcas do passado: queixas e
lamentos estão ali anotados, e sobre elas
paira a sombra da tristeza e desventura;
contudo há um encanto melancólico nesta sombra.
Nela existe uma herança do passado, eco de algo familiar
e querido que, graças à memória do coração,
continua a viver na perda que já sofremos; e no crepúsculo
do dia nos recordamos tanto da
suavidade da manhã quanto do brilho e do calor do meio-dia.
Às vezes, ainda gosto da vida, minha velha companheira,
com suas aflições e tristonhas incertezas;
acaricio, então, o meu roupão com ternura e com respeito
como um soldado o faz com sua túnica
toda crivada de balas em campo de batalha...
(Príncipe Petr Vyazemsky)
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